Após uma noite emocionante para os brasileiros, senti-me obrigada a escrever minhas próprias emoções também. No último domingo, dia 05, ocorreu a premiação do Globo de Ouro, organizado pela Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood, em que concorrem produções audiovisuais nacionais e internacionais, com o foco em filmes e séries de drama e comédia/musical. O filme brasileiro “Ainda Estou Aqui” concorreu na categoria Melhor Filme Internacional e Fernanda Torres concorreu como Melhor Atriz em Filme Dramático. Em entrevista para Globo, Fernanda fala do milagre que é apenas concorrer a esse prêmio pela barreira da língua, onde a maioria das produções audiovisuais concorrendo são de língua inglesa ou espanhola. Walter Salles confirma a vitória pela indicação, neste ano atípico em que mais de 20 filmes concorreram pela categoria de filme internacional.
Confesso que ainda não assisti ao filme e não acompanho premiações, mas fiquei muito emocionada com a comoção que esse filme está gerando entre os brasileiros. Ontem, comemoramos a vitória de Fernanda Torres como comemoramos uma vitória em final de Copa do Mundo, pelo menos esse foi o sentimento que chegou até mim. Quem trabalha com arte e cultura sabe da grandiosidade desse movimento. Mais do que o reconhecimento externo, nós precisamos do reconhecimento nacional. Brasileiros precisam, urgentemente, retomar o orgulho da nossa produção artística tão genial e criativa, de capacidades inimagináveis se pensarmos que nossa herança cultural abrange todos os povos, somos a confluência, ousaria dizer que a encruzilhada da humanidade que se apresenta, ou que poderia se apresentar, como a boa nova restaurando a esperança na humanidade. Essa é a nossa utopia brasileira e eu a defendo com muita alegria.
Antes de nos apropriarmos dessa narrativa de capacidades revolucionárias, precisamos avançar muito na reconstrução de uma nação de traumas coletivos intensos em sua história. Pode não parecer, quando olhamos para as últimas tragédias contemporâneas que parecem o prefácio do fim do mundo. Mas, se olharmos com certo distanciamento crítico através dessa mesma história, conseguimos perceber que o processo é árduo mas contínuo e evolutivo. Com ressalvas ao que chamamos de evolução. Evolutivo no sentido de desenvolvermos o drama ritual coletivo para a cura do trauma da Colonização, uma invasão violenta e doentia, perturbando profundamente o equilíbrio entre os povos originários e a natureza.
Acredito que podemos, em perspectiva, observar a linha do tempo com certo otimismo: a Colonização como o trauma primordial moderno, seguido do sistema escravocrata de indígenas e africanos sequestrados; a reativação desse trauma no golpe antidemocrático que instaurou o Regime Ditatorial Militar; e, agora, em nossa história mais recente, com o impeachment da primeira mulher eleita democraticamente ao cargo de Presidenta da República e a onda crescente dos movimentos reacionários e nazifascistas em território nacional.
Se observarmos esses processos culturais como cíclicos, em que a história se repete e se atualiza, conseguimos ver que essas ideias megalomaníacas de violência e controle dos corpos, pouco a pouco, vai perdendo a força. Nos resta, então, transformarmos essa experiência, na medida do possível, em matéria útil na reconstrução de memórias que foram apagadas e na construção de uma inédita nação genuinamente brasileira, ultrapassando seus traumas. O que poderia ser mais importante que a Arte, como instrumento subversivo de comunicação, que alcança até os níveis mais profundos do inconsciente coletivo e sua produção simbólica e do imaginário, para o desenvolvimento dessa força criativa de transformação e renascimento?


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